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quarta-feira, junho 10, 2009

Nariz

Finalmente em Nariz, acordo e deixo-me invadir pela paz. Lá fora o céu enublado transmite a ideia de que o dia ainda não acordou. É tão bom estar em Nariz. Dormi profundamente a noite inteira e acordo confortada e cheia de forças. Penso em levantar-me e descubro que não vou enfrentar o Mundo lá fora, não preciso, não há nada que enfrentar. Este mundo pertence-me e eu pertenço-lhe. Estou em casa, finalmente, sem saber bem quando ou como este local se tornou a minha casa.
Ajuda estar rodeada de amigos, ajuda saber que os meus filhos estão bem entregues e seguros, ajuda saber que não há nada a fazer, nem quaisquer responsabilidades sobre os meus ombros. Não há preocupações. O telemóvel não tem rede e a única expressão que me ocorre acerca disto é “ainda bem!”. Não preciso do telemóvel, depois de me ter assegurado que os miúdos estavam bem e de ter assegurado os outros de que tinha chegado bem. Também não tenho rede no PC e não faz mal. Não preciso.
Tomo um pequeno-almoço encantado: café com leite, pão macio com queijo e fiambre, sumo de pêra, acompanhada de um delicioso livro. Como é possível nunca ter lido Paul Auster antes? A escrita fluí facilmente do livro, ondeia, rodopia, toca-me fundo e acaricia-me a alma. As palavras são intensas e precisas, com uma limpidez que me atraí magneticamente. As ideias são complexas e imersivas. Como é que isto me escapou anteriormente? Maravilho-me com a tradução, que por uma vez não me irrita a garganta e fico a pensar se esta escrita será ainda mais mágica no original. Ninguém me interrompe e leio sem pressa e sem medo de ter de parar de repente. Domino o Tempo e encaixo-me no espaço.
Lembro a conversa da última vez, a conversa da noite passada e maravilho-me com a facilidade com que me resolvo aqui, como me organizo interiormente. Abro o computador sem rede e escrevo, deixando escorregar a alma para as teclas, transpirando o bem-estar para o texto. Agora vou levar esta paz para um Pc com rede e continuar a encaixar as minhas peças, sem pressas nem pressões, aqui, no meu sítio.

quarta-feira, junho 03, 2009

quinta-feira, maio 28, 2009

Não Quero esta Reunião

A verdade é que nunca quero nenhuma, mas tenho impressão que esta é pior do que as outras. Estamos cansados, pisados por um ano lectivo que nos esgotou e nos colocou em guerra contra tudo e todos. Os ânimos estão exaltados, as vozes elevam-se e o calor lá fora não ajuda. O ar quente entra pelas frestas das janelas a chamar por nós e apenas a irritabilidade nos mantém acordado.
Lembro-me do montão de testes que tenho pra ver e apetece-me sair daqui. Depois lembro-me do pôr-do-sol de ontem, do rio, da companhia, do calor do Sol a fundir-se com o calor do carinho e ponho em causa as prioridades da minha vida que me obrigam a estar aqui. Por uma vez fugir seria a atitude corajosa mas, cobarde como sou, mantenho me sentada e fujo, por esta janela de cristal líquido, mantendo o corpo presente e deixando voar a alma.

quinta-feira, maio 07, 2009

Degelo

Chegou finalmente a Primavera e com ela descongela o rio do tempo. Os minutos correm ligeiros a derreterem-se em horas que se fundem em dias. A dormência que me paralisou durante o Inverno desaparece aos poucos e sou invadida pelo formigueiro que assinala o regresso das sensações... e a dor. Enfrento os predadores e tento nadar pra sair do fundo. Há alturas em que consigo nadar e sinto-me próximo da superfície. Outras em que não sinto o corpo e me deixo ir à deriva, arrastada pela corrente dos minutos que passam por mim sem deixar marca. Não larguei ainda as drogas nem sinto forças para o fazer. E resta sempre a incontornável dúvida: trará o Verão o fim das metáforas parvas?