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quarta-feira, agosto 12, 2009

Princesa


Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudades,
A princesa do conto: "Era uma vez..."



Florbela Espanca

segunda-feira, junho 22, 2009

Lacre

"The time has come," the Walrus said,
"To talk of many things:
Of shoes--and ships--and sealing-wax--
Of cabbages--and kings--
And why the sea is boiling hot--
And whether pigs have wings."


quarta-feira, junho 10, 2009

Nariz

Finalmente em Nariz, acordo e deixo-me invadir pela paz. Lá fora o céu enublado transmite a ideia de que o dia ainda não acordou. É tão bom estar em Nariz. Dormi profundamente a noite inteira e acordo confortada e cheia de forças. Penso em levantar-me e descubro que não vou enfrentar o Mundo lá fora, não preciso, não há nada que enfrentar. Este mundo pertence-me e eu pertenço-lhe. Estou em casa, finalmente, sem saber bem quando ou como este local se tornou a minha casa.
Ajuda estar rodeada de amigos, ajuda saber que os meus filhos estão bem entregues e seguros, ajuda saber que não há nada a fazer, nem quaisquer responsabilidades sobre os meus ombros. Não há preocupações. O telemóvel não tem rede e a única expressão que me ocorre acerca disto é “ainda bem!”. Não preciso do telemóvel, depois de me ter assegurado que os miúdos estavam bem e de ter assegurado os outros de que tinha chegado bem. Também não tenho rede no PC e não faz mal. Não preciso.
Tomo um pequeno-almoço encantado: café com leite, pão macio com queijo e fiambre, sumo de pêra, acompanhada de um delicioso livro. Como é possível nunca ter lido Paul Auster antes? A escrita fluí facilmente do livro, ondeia, rodopia, toca-me fundo e acaricia-me a alma. As palavras são intensas e precisas, com uma limpidez que me atraí magneticamente. As ideias são complexas e imersivas. Como é que isto me escapou anteriormente? Maravilho-me com a tradução, que por uma vez não me irrita a garganta e fico a pensar se esta escrita será ainda mais mágica no original. Ninguém me interrompe e leio sem pressa e sem medo de ter de parar de repente. Domino o Tempo e encaixo-me no espaço.
Lembro a conversa da última vez, a conversa da noite passada e maravilho-me com a facilidade com que me resolvo aqui, como me organizo interiormente. Abro o computador sem rede e escrevo, deixando escorregar a alma para as teclas, transpirando o bem-estar para o texto. Agora vou levar esta paz para um Pc com rede e continuar a encaixar as minhas peças, sem pressas nem pressões, aqui, no meu sítio.

quarta-feira, junho 03, 2009

segunda-feira, maio 18, 2009

quinta-feira, maio 07, 2009

Degelo

Chegou finalmente a Primavera e com ela descongela o rio do tempo. Os minutos correm ligeiros a derreterem-se em horas que se fundem em dias. A dormência que me paralisou durante o Inverno desaparece aos poucos e sou invadida pelo formigueiro que assinala o regresso das sensações... e a dor. Enfrento os predadores e tento nadar pra sair do fundo. Há alturas em que consigo nadar e sinto-me próximo da superfície. Outras em que não sinto o corpo e me deixo ir à deriva, arrastada pela corrente dos minutos que passam por mim sem deixar marca. Não larguei ainda as drogas nem sinto forças para o fazer. E resta sempre a incontornável dúvida: trará o Verão o fim das metáforas parvas?

domingo, abril 19, 2009

Bebi um Copo de Sol

Sofregamente, em goles grandes e sedentos, como se o Sol me pudesse matar uma sede desconhecida. Bebi-o depressa, sem respirar, com raios a escorrerem-me pelos lados da boca, a pingarem-me do queixo e a mancharem-me a camisola, aquecendo-me o peito. Adoro o Sol e se pudesse enfrascava-me nele de manhã ao pôr-do-sol.




quinta-feira, fevereiro 26, 2009

domingo, novembro 09, 2008

Não Escrevo

Não escrevo porque não. Porque não há palavras a consumirem-me e a quererem saltar-me da boca para não me sufocarem a alma. Porque as drogas bateram-me e eu estou calma. Porque diz quem me conhece que só escrevo quando estou em baixo. Porque escrevo coisas pequenas e com pouco sentido noutros lados e deixo sair a tensão como o vapor de uma panela de pressão...devagarinho...soprando. Porque não me apetece e é tão boa esta ilusão de que só faço o que me apetece!

terça-feira, agosto 26, 2008

Superbock sem Álcool

Há dias assim, perfeitos, perfeitos. Ontem foi um. Porque é perfeito quando o céu é azul e o Sol nos aquece a alma. Porque é perfeito quando a paz nos invade o espírito e o silêncio é apenas interrompido pelos risos das crianças. Porque é perfeito quando vestimos um biquini pela primeira vez em dezasseis anos, não porque estejamos mais magras, mas apenas porque não temos que provar nada a ninguém. Porque é perfeito quando o biquini vermelho comprado na La Redute há dezasseis anos ainda nos serve. Porque é perfeito quando percebemos que não há espaço pra nadar no meio de tantas crianças felizes. Porque é perfeito quando descobrimos que o nosso filho está apaixonado e a nossa filha finalmente aprendeu a nadar. E finalmente porque é perfeito descobrir que a Lei de Lavoisier também se aplica à nossa vida e o primeiro dia deste novo estado de Borboleta pode ser como a Superbock sem álcool, assim, perfeito, perfeito.

domingo, julho 27, 2008

O tempo médio de um xixi

Na gloriosa travessia da península, o meu intestino decidiu rebelar-se e exigir atenção imediata. À falta de caixas de areia, decidi-me a utilizar um dos fabulosos vasos de porcelana que se encontram em cubículos nas estações de serviço. A tarefa revelou-se algo complexa porque, tendo em atenção a sua natureza, tornou-se necessário forrar de papel o dito vaso. Sim, tendo em atenção a Natureza, porque ao contrário do que pensa a maioria dos homens, as meninas raramente se sentam nas casas de banho públicas. E não vou explicar como fazemos, quem sabe, sabe, quem não sabe mais vale desistir de compreender as mulheres.
Depois de forrado o vaso, preparo-me para dar atenção ao dito intestino quando as luzes se apagam. Ora não tendo entrado ninguém com um bolo de anos, nem tendo ninguém batido à porta, e sendo eu uma moça inteligente, deduzo rapidamente que a referida luz possuía um temporizador que a desligava ao fim do tempo médio de um xixi, tempo esse que se tinha esgotado.
Tratei então de descobrir onde estava a "coisinha" dos infravermelhos (ó-lá-u-que-é) que ligava a luz. Primeiro tratei de agitar os braços no ar, ainda sentada e completamente às escuras. Se acham esta acção parva, imaginem que têm uma tatuagem nova que não deve ser coberta por roupa e portanto vestem um fato de banho de peça única, que se encontra, no momento, enrolado juntamente com as calças, nos vossos tornozelos. Sim, estão a imaginar bem, eu despida até aos tornozelos, sentada na sanita e a agitar os braços no ar num cubículo escuro.
Claro que esta acção não teve qualquer efeito. Pensei em que mais poderia fazer e decidi que abrir a porta poderia accionar a luz. Nessa altura tentei lembrar-me se o cubículo dava para outro com lavatório ou directamente para a loja da estação de serviço. Não me consegui lembrar. Lá abri a porta, muito a medo, e constatei com alívio que dava para um cubículo com lavatório. A luz não acendeu, mas descobri um interruptor na parede ao meu lado. Fechei rapidamente a porta e tentei encontrar o interruptor. Não funcionava.
No meio destas experiências todas, o meu intestino acabou o que tinha a fazer, sem se importar com a ausência de luz. Eu lá me convenci que também não ia ver a luz e tratei de limpar a região o melhor possível, rezando para que ficasse tudo minimamente limpo e vesti-me.
Passei então ao cubículo do lavatório e, assim que abri a torneira da água, a luz da casa-de-banho ligou-se.
Agora pergunto eu, para que será a luz accionada a partir do cubículo adjacente? Tenho cá para mim que ou os donos da estação de serviço querem despachar as pessoas ao fim do tempo médio de um xixi ou estão mesmo à espera que elas saiam sem calças para ligar a luz.

quinta-feira, junho 26, 2008

Drogas

As drogas estão finalmente a bater. Não ando mocada, mas perdi a angústia e o desespero, que são sempre coisas simpáticas de se perder. Consigo pensar e hoje, pela primeira vez em mais de um mês, sinto-me feliz. Não me vou perder a pensar se é uma felicidade real ou farmacêutica, mas também não interessa. Ajuda ter um leitor de Mp3 novo e recheado de música fantástica. Hoje os meus pés dançam pela rua, mesmo sem eu querer e sinto-me leve. O tempo também ajuda. Transpiro esperança. E cheira bem.

domingo, março 09, 2008

Mudança

Ontem juntei-me a um mar de gente que lutava pela mudança. Mais do que contra as leis, as politicas, as condições, apetecia-me gritar por respeito, exigir respeito. Pela profissão, por mim, pelo meu trabalho e, acima de tudo, pelos alunos que acabam por ser os mais prejudicados pelas medidas incompetentes deste governo. Sei que não é fácil para quem está de fora perceber a gravidade da questão, mas ontem houve 80.000 (números da polícia) professores a gritarem-no. Não podem ser todos maus docentes. É preciso que nos ouçam.
Também foi engraçado conhecer pessoalmente alguém que leio há mais de 3 anos. Os blogues têm destas coisas, na verdade já nos conheciamos, foi só uma confirmação que existimos em carne e osso. És muito simpática Sofia!

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Porquê?

8.10 da manhã. Entro na Escola num estado de alheamento total, os pensamentos toldados, a sensação de que nem cheguei a sair. Passaram menos de 10 horas desde que saí, com os nervos à flor da pele e o espírito esmagado pelas mágoas e pelas preocupações. A última reunião de ontem foi um pesadelo e o Futuro parece negro e pesado.
A pergunta que mais vezes me atravessa o espírito é "Mas que raios ando eu aqui a fazer?" Ontem lutei o dia todo. Geri papeis, pais, colegas, alunos, funcionários. Terminei o dia a analisar legislação nova, confusa, mal elaborada, incompetente, a impor prazos impossíveis para realizações dúbias. "Por que raios ando eu aqui?"
Toca para o primeiro bloco. 90 minutos com 21 pré-adolescentes que, ultimamente, não se calam um bocadinho. Começo a aula de semblante carregado e sem sorrir. Há que manter a disciplina. E, de repente, dá-se a magia. Em menos de 10 minutos largo o manual e traço esquemas mal-amanhados no quadro. Tenho 21 pares de olhos colados a mim, a beberem-me as palavras e há cerca de 10 braços no ar.
A atmosfera enche-se com a sede de saber e o entusiasmo de aprender estimula ainda mais o meu próprio entusiasmo de ensinar. Os 90 minutos passam a correr e saio da sala cansada mas com um sorriso nos lábios e um pensamento único: "Por isto! É por isto que vale a pena!"

domingo, setembro 23, 2007

Equinócio do Outono

Foi hoje, às 06h.52m. Eu estava a dormir e não dei por nada. O dia hoje já foi mais pequeno. O Sol dirige-se lentamente para o Periélio. Não que isto tenha particular importância, mas nunca tinha utilizado a palavra Periélio numa frase e o meu Avô esforçou-se imenso para que eu a aprendesse. Agora ponho uma musiquinha que meta o Sol e já fica o Equinócio comemorado.




Ok, não é nada de especial, mas tem a ver com a forma como me sinto esta noite.

terça-feira, setembro 11, 2007

Setembro

Quando era miúda o mês de Agosto arrastava-se na Odiada Vilazinha, interminável. Frequentemente os dias amanheciam com um céu enevoado, cinzento e frio. "Lá pró meio-dia levanta!" Dizia o meu avô, com a sabedoria do mar na voz calma. E levantava, dando lugar a dias de calor intenso, em que saíamos da praia com o Sol a pôr-se e a pressa de quem está de férias e tem uma noite de Verão pela frente.
Assim têm amanhecido os dias deste mês de Setembro, cinzentos e a levantar pelo meio dia. E arrastam-se intermináveis, como se estivéssemos em Agosto e só houvesse aulas lá para Outubro. E eu vou-me arrastando com os dias, meio a dormir, como se ainda não fosse a sério. Acordarei quando Setembro acabar, como na canção.


sexta-feira, julho 13, 2007

domingo, julho 08, 2007

Artes e Artistas

Conversa estranha (estilo Bagaço):
Eu - Ainda bem que te encontro. Tenho uma cena para te cravar, mas é um pincel muita grande...
Ela (muito séria) - Isso vai ser difícil, cá no departamento só temos pincéis pequenos.
Eu - Não, não é um pincel que eu quero, a tarefa é que é um pincel. Temos estas plantas em folhas muito grandes e temos que reduzi-las para tamanho A4 ou algo assim do género.
Ela - Ah! Nesse caso fala com a E. e o J., que eles têm mais jeito para isso do que eu.
Eu - Ok. Só te pedi a ti porque me disseram que a tua área é arquitectura.
Ela - Mas não é para pintar os vasos das plantas? Eles são melhores nisso do que eu. Não era para isso que querias o pincel?
Eu - ...

domingo, junho 24, 2007

Bom dia

Foi um dia fabuloso, daqueles em que desde que acordamos nos sentimos bem, como se o destino conspirasse para que os acontecimentos se encaixassem num dia perfeito.
Nada de grandes coisas, muitas daquelas pequeninas que nos deixam um calorzinho cá dentro.
Comecei por acordar só ao meio-dia, porque a minha linda mana mais velha tomou conta das minhas crias e deixou-me dormir até tarde. (obrigada!) Depois, o Jp levou as criancinhas a almoçar na avó, o que me permitiu ficar em casa a molengar enquanto me arranjava e almoçava num ritmo extra-lento. Nessa altura uma das minhas amigas telefona-me e explica-me como posso transformar o campismo programado para este Verão, num fabuloso quarto de Hotel com refeições incluídas, gastando o mesmo.
Feliz da vida, saio de casa para ir comprar uns óculos para a Sofia. Vamos calmamente, só as duas, a conversar pelo caminho. Encontramos os óculos perfeitos, de que ambas gostámos, baratíssimos. Vamos procurar calças para mim, e há! Giras, com um preço simpático e a servirem-me! Nesta altura já só me apetece cantar. Vamos comer um gelado e a Sofia sugere a esplanada, onde nunca há mesa. Encontramos várias mesas vazias e comemos os gelados a ver o rio e a sentir a brisa suave do entardecer. Antes de voltarmos ainda vemos uma dança de sevilhanas que nos deixa um ritmo vivo no andar. Pegámos no carro e voltámos a cantar juntas as canções da rádio.
Há dias assim.