quarta-feira, agosto 12, 2009

Princesa


Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudades,
A princesa do conto: "Era uma vez..."



Florbela Espanca

terça-feira, julho 14, 2009

A Culpa

Tenho a cabeça à volta com a necessidade de tomar decisões e assumir responsabilidades. Penso em como foram bons os últimos 15 anos neste aspecto e apercebo-me de que nunca tive realmente dificuldades com as decisões. De uma forma ou de outra procuro rapidamente soluções para os problemas e defino o que quero, pesando os prós e os contras. Não tenho grandes problemas em assumir responsabilidades e em dar a cara. Já a culpa é outro assunto diferente.
De há uns meses para cá as escolhas são minhas, as decisões são minhas, as responsabilidades são minhas. Mas tenho a perfeita noção de que as consequências também são minhas e se algo falhar a Culpa é minha.
Estou rodeada de pessoas que gostam de mim e que têm a bondade de me aconselhar quando lhes peço e, às vezes, mesmo quando não peço. são pessoas inteligentes e astutas que põe o meu bem-estar à frente e que têm o bom senso de me fazer ver os prós e os contras. Mas isto não altera o facto de as consequências serem exclusivamente minhas, de ser eu a ter de resolver quando as coisas correrem mal, de em última análise A Culpa ser minha.
Ao escrever isto apercebo-me de que não serei recriminada. Se a decisão for errada vou ter apoio e ninguém vai deixar de gostar de mim por causa disso. Curiosamente isto não me ajuda a tomar a decisão. O facto de não me recriminarem não quer dizer que não as desiluda e não me apetece desiludir ninguém. Bolas que sou complicada!

segunda-feira, junho 22, 2009

Lacre

"The time has come," the Walrus said,
"To talk of many things:
Of shoes--and ships--and sealing-wax--
Of cabbages--and kings--
And why the sea is boiling hot--
And whether pigs have wings."


quarta-feira, junho 10, 2009

Nariz

Finalmente em Nariz, acordo e deixo-me invadir pela paz. Lá fora o céu enublado transmite a ideia de que o dia ainda não acordou. É tão bom estar em Nariz. Dormi profundamente a noite inteira e acordo confortada e cheia de forças. Penso em levantar-me e descubro que não vou enfrentar o Mundo lá fora, não preciso, não há nada que enfrentar. Este mundo pertence-me e eu pertenço-lhe. Estou em casa, finalmente, sem saber bem quando ou como este local se tornou a minha casa.
Ajuda estar rodeada de amigos, ajuda saber que os meus filhos estão bem entregues e seguros, ajuda saber que não há nada a fazer, nem quaisquer responsabilidades sobre os meus ombros. Não há preocupações. O telemóvel não tem rede e a única expressão que me ocorre acerca disto é “ainda bem!”. Não preciso do telemóvel, depois de me ter assegurado que os miúdos estavam bem e de ter assegurado os outros de que tinha chegado bem. Também não tenho rede no PC e não faz mal. Não preciso.
Tomo um pequeno-almoço encantado: café com leite, pão macio com queijo e fiambre, sumo de pêra, acompanhada de um delicioso livro. Como é possível nunca ter lido Paul Auster antes? A escrita fluí facilmente do livro, ondeia, rodopia, toca-me fundo e acaricia-me a alma. As palavras são intensas e precisas, com uma limpidez que me atraí magneticamente. As ideias são complexas e imersivas. Como é que isto me escapou anteriormente? Maravilho-me com a tradução, que por uma vez não me irrita a garganta e fico a pensar se esta escrita será ainda mais mágica no original. Ninguém me interrompe e leio sem pressa e sem medo de ter de parar de repente. Domino o Tempo e encaixo-me no espaço.
Lembro a conversa da última vez, a conversa da noite passada e maravilho-me com a facilidade com que me resolvo aqui, como me organizo interiormente. Abro o computador sem rede e escrevo, deixando escorregar a alma para as teclas, transpirando o bem-estar para o texto. Agora vou levar esta paz para um Pc com rede e continuar a encaixar as minhas peças, sem pressas nem pressões, aqui, no meu sítio.

quarta-feira, junho 03, 2009

quinta-feira, maio 28, 2009

Não Quero esta Reunião

A verdade é que nunca quero nenhuma, mas tenho impressão que esta é pior do que as outras. Estamos cansados, pisados por um ano lectivo que nos esgotou e nos colocou em guerra contra tudo e todos. Os ânimos estão exaltados, as vozes elevam-se e o calor lá fora não ajuda. O ar quente entra pelas frestas das janelas a chamar por nós e apenas a irritabilidade nos mantém acordado.
Lembro-me do montão de testes que tenho pra ver e apetece-me sair daqui. Depois lembro-me do pôr-do-sol de ontem, do rio, da companhia, do calor do Sol a fundir-se com o calor do carinho e ponho em causa as prioridades da minha vida que me obrigam a estar aqui. Por uma vez fugir seria a atitude corajosa mas, cobarde como sou, mantenho me sentada e fujo, por esta janela de cristal líquido, mantendo o corpo presente e deixando voar a alma.

terça-feira, maio 19, 2009

Estou a pensar ir ver isto




No dia 29, às 22h.

segunda-feira, maio 18, 2009

quinta-feira, maio 07, 2009

Degelo

Chegou finalmente a Primavera e com ela descongela o rio do tempo. Os minutos correm ligeiros a derreterem-se em horas que se fundem em dias. A dormência que me paralisou durante o Inverno desaparece aos poucos e sou invadida pelo formigueiro que assinala o regresso das sensações... e a dor. Enfrento os predadores e tento nadar pra sair do fundo. Há alturas em que consigo nadar e sinto-me próximo da superfície. Outras em que não sinto o corpo e me deixo ir à deriva, arrastada pela corrente dos minutos que passam por mim sem deixar marca. Não larguei ainda as drogas nem sinto forças para o fazer. E resta sempre a incontornável dúvida: trará o Verão o fim das metáforas parvas?

domingo, abril 19, 2009

Bebi um Copo de Sol

Sofregamente, em goles grandes e sedentos, como se o Sol me pudesse matar uma sede desconhecida. Bebi-o depressa, sem respirar, com raios a escorrerem-me pelos lados da boca, a pingarem-me do queixo e a mancharem-me a camisola, aquecendo-me o peito. Adoro o Sol e se pudesse enfrascava-me nele de manhã ao pôr-do-sol.




sábado, abril 04, 2009

Procrastinar

Porque às vezes viver o momento é demasiado díficil.

quarta-feira, março 11, 2009

No Fundo

Respiro fundo e mergulho na água fria, completamente, rapidamente. Sinto a pele a arrefecer e a adormecer-me os sentidos. A dor diminui embotada pelo frio. A água acaricia-me suavemente e deixo-me vaguear por entre as cores doces e os movimentos lentos. Olho à volta, fascinada pelas diferenças do que me rodeia e sinto o alívio da sustentação que a água me dá. Sinto-me leve. Penso que não fora a falta de ar e poderia viver assim para sempre e no exacto momento em que o penso ,sinto o corpo a ser puxado de novo para a superfície. Tento mergulhar mais fundo, ignorar o ar que se esgota e ficar submersa, mas não consigo. A minha cabeça rompe a tensão superficial da água e sinto rios a escorrerem-me pela cara. Acordo de um sonho real. As cores são intensas, o peso esmagador. Só a falta de ar permanece constante.

quarta-feira, março 04, 2009

Crise de Meia Idade

É desta que vou viver para o Taiti.


quinta-feira, fevereiro 26, 2009

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

These are a few of my favourite things

Já dizia a Maria cantada pela Julie Andrews que quando a vida está complicada o melhor é pensarmos nas nossas coisas preferidas:



Portanto aqui ficam:

Pastéis de Belém,sacos de água quente, roupa interior de cetim, batons de framboesa, beijos de bebés, gatinhos, ar quente no pescoço, andar de mãos dadas, os primeiros dias de Primavera, o Pôr-do-Sol no Verão, um "page-turner", Dröste, os meus filhos, lamber o sal da pele, começar um caderno novo, canetas, presentes, festas, amigos...

And then I don't feel so bad...

domingo, fevereiro 01, 2009

Camões estava errado

Mudança é coisa que não existe. A própria Teoria do Caos demonstra que mesmo os acontecimentos aleatórios acabam por definir uma certa ordem em torno de atractores estranhos.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Mudanças

A leitura do blogue de uma amiga esfregou-me na cara o quanto estou sedenta de mudança. Há imensas coisas na minha vida que gostava mudar e o facto é que acabo por não o fazer, uma vez que as coisas nunca são tão lineares como parecem e os equilibrios são frágeis.
A minha avó dizia (mesmo!): "O que não se pode remediar, remediado está." O que se me afigura extremamente sensato, mas não altera a minha sede de mudança. Assim, ando a pensar seguir o exemplo da minha amiga e mudar o meu hairstyle.
O plano é o seguinte: embora lá fingir que este blogue tem leitores e que os ditos leitores até se interessam pelo meu corte de cabelo (Têm consciência que isto torna a vossa prórpia vida completamente desinteressante e vazia? Não têm mais nada para fazer do que interessarem-se pelo corte de cabelo de outra pessoa? Geeee, get a life!) e promover uma votação sobre o corte de cabelo que farei pra comemorar o meu aniversário.
Assim, da esquerda para a direita e de cima para baixo imaginem numeradas as imagens desta página de 1 a 21. Votem num dos estilos ou deêm-me sugestões diferentes. Têm até dia 31.
Estou agora aqui a pensar nas considerações que eu poderia fazer sobre a minha personalidade depois de ter proposto uma votação sobre o meu próximo corte de cabelo.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Estou Além

Gelada na verdade, mas acho que estamos todos. O próprio tempo congelou, todos os minutos e segundos cristalizados, como se fosse um ribeiro de água sólida e nós os peixes aprisionados no gelo. Não é confortável, mas também não é mau, quase como se os próprios sentimentos estivessem também suspensos e a solidez do gelo nos fornecesse protecção contra os predadores do Mundo.

Releio o que escrevi e rio-me baixinho das metáforas parvas, num riso que se fragmenta a meio e cai no vazio. Bato os pés no chão para os aquecer e sinto-os barbatanas. Não tenho nada para escrever, na verdade. Não é tanto o não querer, é não ter nada para dizer. Está tudo bem, excepto o que está mal e disso não me apetece falar. Não penso nisso sequer. Ultimamente coloquei umas lentes cor-de-rosa e só vejo as partes boas. E são muitas.

Os meus filhos estão tão crescidos e tão lindos. Ontem, no elevador, reparei que o João está finalmente mais alto do que eu. Disse-lho e ele encolheu-se, a tentar que eu não me sentisse mal por me ver ultrapassada. Não senti. Senti orgulho, imenso orgulho. A Sofia lê tudo e desembaraça-se. Preocupa-me o facto de ter uma má relação com a escola. Preocupa-me o facto de me ter enganado redondamente em relação à personalidade dela. É uma criança carinhosa, sensível, muito preocupada com tudo e todos, super-atenta aos detalhes do que a rodeia. Penso que não os protejo o suficiente, com a mesma rapidez com que penso que os protejo demais. Cresceram tão depressa.

Sou cada vez mais mimada. Tenho ao meu redor um grupo enorme de pessoas que me enche de mimo e carinho e me faz sentir bem. Penso muitas vezes se será isso e não as drogas que me permite esta camada gelada de protecção e as lentes cor-de-rosa. Tenho tido tanta atenção por parte de todos. Poderia viver assim para sempre…Claro que para sempre não existe.

Para sempre não existe e sei que a Primavera há-de chegar e com ela o degelo. Hei-de ter de largar as drogas e nadar. Hei-de ter de enfrentar os predadores. Mas hoje não quero pensar nisso, hoje quero a dormência do gelo. Quero continuar assim, além.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Maria vai com as Outras

Da primeira vez que vi este desafio resisti...da segunda também... mas agora não dá mais. Regras:

I. colocar uma foto individual nossa;
II. escolher uma banda/artista;
III. responder às questões somente com títulos de canções da banda/artista escolhido;
IV. escolher 4 pessoas que respondam ao desafio, sem esquecer de avisá-los.

I. A fotografia:



II. A banda: Trovante

III. As respostas:
>3.2. Descreve-te: “Pedra no charco”.
3.3. O que as pessoas acham de ti? “Um caso mais”.
3.4. Como descreves o teu último relacionamento: “Lua de Março”.
3.5. Descreve o estado actual da tua relação com a tua namorada ou pretendente: “Sorriso”.
3.6. Onde querias estar agora? “Esplanada”.
3.7. O que pensas a respeito do amor? “Perdidamente”.
3.8. Como é a tua vida? “Fiz-me à Cidade”.
3.9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo? “Noites de Verão”
3.10. Escreve uma frase sábia: “Saudade”.


IV. Escolher 4 pessoas a quem passar o desafio:


Blue

Winter
Sonya
Aggio

terça-feira, dezembro 09, 2008

Desinfecto-me

Em Julho deste ano e pela primeira vez na minha vida deixei de falar com alguém. Não porque me tivessem magoado demais, já fui magoada anteriormente e nunca desisti das pessoas. Tenho uma enorme facilidade em gostar dos outros e é-me difícil perder pessoas. Em Julho desisti porque cheguei à conclusão que não só não me ouviam como tudo o que eu dizia era horrivelmente distorcido. Por mais que eu tentasse ajudar, por mais que eu tentasse esclarecer, nada adiantava. Era pior do que falar para uma parede, uma vez que a parede não modifica o que dizemos nem lhes inventa significados. Desisti também porque percebi que não estava a cuidar de um afecto meu e sim de um afecto herdado, estava a lutar por alguém que não conhecia verdadeiramente, alguém que eu amava por interposta pessoa. Odiei desistir e custou-me horrores, uma vez que, sendo teimosa, me é difícil admitir derrotas.

Desisti mas continuei a observar a pessoa ao longe, com a fascinação doentia de quem segue o percurso de um ciclone à medida que vai fazendo estragos e semeando o caos. A sentir-me horrorizada mas sem deixar de olhar. A semana passada cansei-me. Percebi que me fazia mal e que me deixava doente. Percebi que me inundava de ódio e fazia de mim uma pessoa pior. Tal como defendo o direito de todos a escreverem exactamente aquilo que querem, defendo também o meu direito de ler apenas o que me apetece.

A semana passada, pela primeira vez, retirei blogs da minha lista, num esforço consciente para eliminar alguém da minha vida. Se a árvore cair no meio da floresta e ninguém vir, cairá a árvore realmente? Se fecharmos os olhos e fizermos muita força, será que conseguimos que a realidade mude? Valerá alguma coisa uma afirmação de desinteresse? No fundo sei que deixar de olhar não muda o horror, mas tenho esperança que impeça o contágio.