Parece impossível como por vezes uma cadeia de acontecimentos trágicos pode ser desencadeada com uma frase tão simples como:
"Enviei-te um mail para o naoqueroescrever@gmail.com".
Até agora nada de anormal. Vou ver. O texto diz: "Eu sei que não querias, mas acho que a foto apanhou bem o momento!". Olho horrorizada para a foto que acompanha o texto. Shit! É o pensamento que de imediato me invade o cérebro e que passo a transmitir à minha interlocutora via MSN.
Abro a foto. Não quero acreditar. "Andas com problemas de auto-imagem" tem-me dito o psicólogo cá de casa. Não fui eu que tirei a foto. É uma hetero-imagem. Também ando com problemas de hetero-imagem. Graves. Olho melhor. O cabelo está esquisito, não se vêem os caracóis, mas está com uma cor estranha. Está desbotado.
Deve ser de o pintar, de vez em quando, com aqueles produtos que vão saindo. Parece que sempre vai ficando alguma coisa. Ou então é do Sol. Vou até à casa-de-banho. Tenho um desses produtos debaixo do lavatório há quase três meses. Comprei-o, mas não me tem apetecido usá-lo. Foi uma compra impulsiva, noutra dessas crises de auto-imagem. Ou nesta, na volta é uma crise longa. A caixa é verde, acho que nunca usei esta marca. Acabo por comprar sempre a mesma cor, um castanho igual ao meu, mas com uns
reflexos avermelhados. Vou preparando o produto e reparo que a cor do creme é diferente do habitual. Branco sujo. Costuma ser mais escura,
beje e depois vai escurecendo até ficar laranja muito escuro. Agito o frasco.
Olho-me ao espelho. Não gosto da imagem. Começo a aplicar o creme, que vai escurecendo. Parece estar a ficar rosa. Gosto desta cor, faz lembrar gelado de morango. Não é bem rosa, é mais lilás, como as senhoras de idade costumavam por no cabelo quando eu era pequena. Continua a escurecer.
Purple é a palavra que me vem à mente. Penso na palavra portuguesa para esta cor. Beringela. Como o cabelo da minha colega C.. Reparei ontem que o pintou de Beringela. Lembro-me de ter pensado claramente: "Aí está uma cor com que nunca pintaria o cabelo..." Paro de pintar. Nunca. Um enorme fatalismo abate-se sobre mim.
Procuro frenética o nome da cor: "
Acajou avermelhado." Que raios quer isto dizer? Costumo comprar pela cor da foto, não pelo nome. Não há-de ser nada. Olho-me ao espelho. Roxo é agora a cor. É só lavar muito. Normalmente sai em 8 a 10 lavagens. Procuro na caixa o número exacto. Não encontro.
Diz apenas "coloração permanente". Sinto um calafrio. Resta-me esperar meia hora. É o que faço enquanto escrevo isto.
Penso na cara do psicólogo quando chegar a casa. "Andas com problemas de auto-imagem." Isso e caracóis roxos.